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18 de agosto de 2026: uma data que o sindicalismo brasileiro não deveria esquecer

Alexandre Magnus, ex-coordenador da Fenajufe e ex-coordenador do Sitraemg
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Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores, não sendo esta necessariamente a opinião da diretoria do Sitraemg.


Dirigentes sindicais nacionais são afastados da FENAJUFE, segundo seus relatos, sem contraditório e ampla defesa e em aparente desacordo com as regras estatutárias da própria Federação

18 de agosto de 2026 poderá entrar para a história do sindicalismo brasileiro como um dia que precisa ser lembrado — não por conquistas da categoria, mas pelos graves questionamentos que surgem sobre democracia, pluralidade e respeito às próprias regras dentro de uma entidade sindical nacional.

Na data em que uma Federação nacional deveria estar concentrada na defesa dos mais de cem mil servidores do Poder Judiciário da União, uma grave disputa interna ganhou protagonismo.

Segundo relatos dos dirigentes atingidos, integrantes da direção nacional da FENAJUFE vinculados à representação de Minas Gerais e identificados com posições divergentes do grupo majoritário teriam sido afastados de forma sumária, sem que lhes fossem assegurados previamente o contraditório e a ampla defesa.

Entre os dirigentes mineiros que afirmam ter sido afastados estão Eliana Leocádia, Nélia Vânia, David Landau, Nelson da Costa e Alexandre Magnus, este último licenciado por motivo de saúde.

Ao mesmo tempo, outros dirigentes nacionais mineiros permaneceram na estrutura da Federação, circunstância que, segundo os críticos da decisão, reforçaria a percepção de tratamento político diferenciado.

A pergunta é inevitável:

Estamos diante de uma medida administrativa legítima, prevista no estatuto e adotada com respeito ao devido procedimento, ou diante de uma punição política contra dirigentes que passaram a divergir do grupo majoritário?

Essa questão não deve ser respondida por acusações entre grupos.

Precisa ser respondida com estatuto, documentos, atas, decisões formais e transparência.

O estatuto precisa valer para todos

O problema não está na existência de divergências políticas. Divergência faz parte da democracia sindical.

O problema surge quando a divergência passa a ser tratada como motivo para exclusão.

Segundo os dirigentes atingidos, o Estatuto da FENAJUFE não autorizaria a Diretoria Executiva, isoladamente, a aplicar uma punição dessa natureza, exigindo a apreciação por instância superior, conforme as próprias regras estatutárias.

Se essa interpretação estiver correta, surge uma questão ainda mais grave:

Quem fiscaliza o cumprimento do estatuto quando a própria direção da entidade toma uma decisão que afeta seus dirigentes?

O estatuto deve valer para todos: para a maioria, para a minoria, para quem concorda e, principalmente, para quem diverge.

Contraditório e ampla defesa não podem ser palavras vazias

Também precisa ser esclarecida a alegação de que os dirigentes foram afastados sem oportunidade adequada de apresentar defesa.

Por isso, algumas perguntas são indispensáveis:

Qual foi o procedimento adotado?

Quais foram os fundamentos utilizados?

Os dirigentes foram previamente notificados?

Tiveram oportunidade de apresentar defesa?

Qual órgão possuía competência estatutária para tomar a decisão?

Houve ata formal?

Qual dispositivo do Estatuto fundamentou o afastamento?

Essas perguntas precisam ser respondidas publicamente pela própria Federação.

Porque democracia sindical não pode significar apenas o direito da maioria de decidir.

Também significa garantir à minoria o direito de falar, divergir e se defender.

Divergência sindical não pode virar exclusão política

Uma federação nacional deveria ser espaço de pluralidade, onde diferentes correntes possam disputar ideias, apresentar propostas e construir consensos.

A divergência não é uma doença do sindicalismo. É parte da democracia sindical.

Se dirigentes que participaram durante anos de greves, mobilizações e lutas em defesa dos servidores podem ser afastados simplesmente porque passaram a discordar da orientação do grupo majoritário, então a discussão deixa de ser uma simples disputa interna.

Passa a ser uma discussão sobre o próprio modelo de democracia sindical.

Enquanto isso, quem está defendendo a carreira?

Esse talvez seja o ponto mais importante.

Enquanto a direção da Federação dedica tempo e energia a disputas internas, quem está conduzindo a mobilização nacional em defesa dos servidores?

Onde está a pressão pela reestruturação da carreira?

Onde está a luta pela derrubada do Veto 45?

Onde está a mobilização pela data-base?

Onde estão os grandes atos nacionais?

Onde está a pressão organizada diante do STF e do CNJ?

Já são 11 anos sem GREVE ?

Onde está uma campanha nacional pela valorização dos servidores?

Servidor não precisa apenas de reunião. Precisa de resultado.

Uma Federação nacional precisa ser instrumento de mobilização, pressão política, negociação e, quando necessário, de construção de uma greve nacional.

Por que a carreira não avança?

Essa é uma pergunta que os servidores precisam fazer com insistência.

Por que outras carreiras do serviço público conseguem avanços estruturais enquanto os servidores do PJU continuam esperando uma solução definitiva para sua carreira?

Por que uma categoria numerosa, altamente qualificada e essencial ao funcionamento da Justiça encontra tantas dificuldades para transformar sua insatisfação em força política organizada?

E, principalmente: qual é a responsabilidade da representação nacional nesse processo?

Governo, Congresso Nacional, STF e CNJ têm responsabilidades decisórias. Mas uma representação sindical nacional existe justamente para organizar os trabalhadores e pressionar essas instituições.

Uma Federação não pode ser apenas um espaço de representação institucional.

Precisa ser instrumento de luta.

Onze anos sem uma grande greve nacional

Há outra pergunta que precisa ser enfrentada:

Por que a categoria está há tantos anos sem construir uma grande greve nacional capaz de produzir pressão efetiva?

Não se trata de defender greve por greve.

Trata-se de compreender por que uma categoria de mais de cem mil trabalhadores tem tanta dificuldade para transformar indignação em mobilização nacional.

Se o governo não atende.

Se o Congresso não atende.

Se o STF não atende.

Se o CNJ não atende.

Qual é a força que resta aos trabalhadores?

Mobilização. Greve. Atos públicos. Pressão política. Comunicação com a sociedade. Organização da base.

E é justamente nesse ponto que a representação nacional precisa ser cobrada.

Uma crise de representatividade que não começou hoje

Os acontecimentos atuais precisam ser analisados dentro de um contexto mais amplo.

A saída do Sindjus-DF da estrutura da FENAJUFE já havia demonstrado a existência de críticas e questionamentos importantes sobre o modelo de representação nacional.

Agora, em 2026, surge um novo episódio em Minas Gerais.

Em 4 de julho, o SITRAEMG realizou Assembleia Geral Extraordinária para deliberar sobre sua permanência na Federação. Segundo os números divulgados, 1.383 filiados participaram: 710 votaram pela desfiliação, 662 pela manutenção e 11 se abstiveram.

A maioria decidiu pela desfiliação.

O episódio não deveria ser reduzido simplesmente a uma disputa entre grupos.

Quando sindicatos e suas bases questionam sua permanência em uma federação nacional, é preciso perguntar:

Por que parte significativa da base deixou de se sentir representada?

E os recursos da categoria?

Outra questão que exige transparência diz respeito aos recursos destinados à representação nacional.

Quanto a FENAJUFE arrecada?

Quanto é destinado à mobilização?

Quanto é investido em campanhas nacionais?

Quanto é destinado à pressão política pela carreira?

Quanto é investido em atos e campanhas diante do STF, CNJ e Congresso Nacional?

A categoria tem o direito de conhecer essas informações.

Cada recurso arrecadado em nome dos trabalhadores deve estar submetido à transparência e a uma finalidade compatível com a defesa dos seus interesses.

Sindicato não é partido político

Outra discussão necessária envolve a relação entre sindicalismo e política partidária.

Dirigentes sindicais têm o direito de possuir suas convicções políticas. Mas uma entidade sindical deve preservar sua autonomia diante de governos e partidos.

Uma Federação deve cobrar governos de esquerda, centro ou direita.

Deve apoiar aquilo que beneficia os trabalhadores e combater aquilo que prejudica seus direitos.

A independência sindical não pode depender de quem ocupa o governo.

Quando dirigentes sindicais ocupam funções de confiança em estruturas governamentais, também é legítimo que a categoria exija transparência sobre os diferentes papéis exercidos.

Não se trata de impedir ninguém de exercer função pública.

Trata-se de preservar a independência da representação sindical.

O que aconteceu em 18 de agosto precisa ser esclarecido

O episódio de 18 de agosto não pode ser tratado simplesmente como mais uma reunião administrativa.

Se realmente houve afastamento de dirigentes sem contraditório e ampla defesa; se realmente houve decisão em desacordo com as competências previstas no Estatuto;
se realmente houve tratamento diferente entre dirigentes em razão de suas posições políticas; então estamos diante de questões extremamente graves para a democracia sindical.

E justamente por serem graves, precisam ser demonstradas.

Que sejam apresentados os documentos.

Que o Estatuto seja colocado sobre a mesa.

Que as atas sejam conhecidas.

Que os dirigentes atingidos possam se manifestar.

Que a categoria conheça os fundamentos da decisão.

E que cada lado tenha o direito de apresentar sua versão.

Porque democracia sindical não se constrói eliminando a divergência.

Constrói-se enfrentando a divergência com argumentos.

A pergunta que fica:

Depois de tantos acontecimentos, uma pergunta precisa ser feita aos servidores do Judiciário Federal:

A atual estrutura de representação nacional está conseguindo cumprir a missão para a qual foi criada?
Se dirigentes são afastados em meio a disputas políticas; se setores da categoria questionam sua representação; se sindicatos importantes deixam ou discutem deixar a Federação; se a carreira continua sem uma solução estrutural; se a mobilização nacional não corresponde ao tamanho da categoria;
se as grandes pautas continuam sem solução; e se a energia da direção é consumida por conflitos internos… não chegou a hora de discutir seriamente o futuro da representação nacional dos servidores do PJU?

Essa discussão não deve ser feita para defender um grupo contra outro.

Deve ser feita para defender os servidores.

A categoria não precisa de uma Federação preocupada apenas em administrar sua própria estrutura.

Precisa de uma Federação que mobilize, pressione, denuncie, negocie e lute.

Uma Federação independente de partidos e governos.

Uma Federação que respeite sua própria carta estatutária.

Uma Federação que compreenda que democracia sindical não existe apenas quando a maioria vence.

Ela também existe quando a minoria pode falar, divergir, se defender e continuar participando.

18 de agosto: um alerta para todo o sindicalismo brasileiro

O que ocorreu em 18 de agosto de 2026 — e, sobretudo, o que ainda precisa ser esclarecido — deveria servir de alerta não apenas aos servidores do Judiciário Federal, mas a todo o sindicalismo brasileiro.

Porque a força de uma entidade sindical não está apenas no número de dirigentes que ocupa cargos.

Está na confiança da base, na democracia interna, na transparência, na pluralidade, na independência e na capacidade de mobilização.

Não são os cargos que importam.

Não são as correntes políticas que importam.

Não são as disputas internas que importam.

São os servidores.

E são eles que precisam voltar a ocupar o centro da representação sindical.

Por isso, 18 de agosto de 2026 não deveria ser lembrado como apenas mais um dia de disputa interna.

Deveria ser lembrado como o dia em que a categoria foi chamada a fazer uma pergunta fundamental:

Que tipo de sindicalismo queremos para o futuro?

Um sindicalismo que exclui a divergência?

Ou um sindicalismo que respeita a pluralidade, protege a democracia interna e coloca a luta dos trabalhadores acima das disputas de grupos?

A resposta não pertence a uma corrente.

Pertence aos servidores.

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