Acompanhe o Sitraemg nas redes sociais

Assédio moral e sua relação com o neoliberalismo

Arthur Lobato, psicólogo, consultor em saúde do Departamento de Saúde do Trabalhador e Combate ao Assédio Moral (DSTCAM) do Sitraemg
Compartilhe

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores, não sendo esta necessariamente a opinião da diretoria do Sitraemg.


Assédio moral e sua relação com o neoliberalismo a partir dos conceitos emitidos por Vladimir Safatle ¹ no livro: Psicanálise dos novos fascismos globais – A ameaça interna

Tenho como proposta, neste artigo, fazer um paralelo do conceito de assédio moral e sua relação com o neoliberalismo, a partir dos conceitos emitidos por Vladimir Safatle nessa obra tão importante de ser lida e analisada. O livro contém informações que podem ser úteis como instrumento de luta contra os chamados fascismos modernos.

No prefácio de Patrice Maniglier, professor do Departamento de Filosofia da Université Paris Oest Nanterre, já lemos a síntese da obra de Vladimir Safatle que defende a existência de um fascismo estrutural próprio das sociedades liberais, que emerge com força em situações de crises simultâneas, como as que vivenciamos atualmente.

A extrema direita entende que não é mais possível gerenciar essas crises do sistema capitalista e encara o problema de forma pragmática: “não há sociedade para todos, somente uma parte das pessoas poderá usufruir de uma vida digna; daí que defenda fechar fronteiras, deportar imigrantes, precarizar ainda mais a vida da população mais pobre, submetê-la à violência policial, à espoliação, excluí-la de qualquer projeto comum de sociedade”.

fascismo, continua Patrice Maniglier, não se baseia na irracionalidade ou impulsos descontrolados, e sim em sujeitos que aplicam de modo consistente a lógica neoliberal da concorrência generalizada em um ambiente social que cada vez mais se assemelha a uma guerra civil mundial.

No livro Psicanálise dos novos fascismos globais A ameaça interna, Vladimir Safatle defende que o fascismo opera como resposta dramaticamente coerente com as contradições dessas formas de subjetivação e propõe que o problema não se encontra em supostas patologias individuais, mas na normalidade social que produz modos de identificação centradas no “eu”, e por fim, é preciso compreender o fascismo como uma forma específica de violência que reconstrói a sociedade a partir da mutação de afetos sociais generalizando dinâmicas dessensibilização. Contra isso será necessário mais do que o que fizemos até agora.

Assim, o indivíduo é formado no século 21 pelas informações e fake news das redes sociais, como o Instagram, o whatsapp, entro outras, além da Inteligência Artificial (IA) usada para o bem ou para o mal. A IA se encontra onipresente em todos os computadores e celulares, com o domínio da ideologia do individualismo e do sucesso a qualquer custo, que tem de ser validado nas redes sociais através de likes e seguidores.

No trabalho, a ideologia neoliberal desloca o fracasso da empresa ou instituição, para o trabalhador e a trabalhadora, que além de – vestir a camisa e dar o sangue – tem sua energia mental e emocional sugada pelas metas impossíveis de serem alcançadas. Além disso, as exigências de produtividade são muitas vezes feitas através de ameaças, de humilhações, de coerção e do assédio moral, legalizado pelo poder soberano das chefias.

É sempre bom não esquecer o conceito de assédio moral da pioneira nos estudos acadêmicos e sindicais sobre assédio moral, Margarida Barreto², conceito científico, composto em parceria com o professor doutor Roberto Heloani³, em 2018:

Assédio moral é uma conduta abusiva, intencional, frequente e repetida, que ocorre no meio ambiente laboral, cuja causalidade se relaciona com as formas de organizar o trabalho e a cultura organizacional, que visa humilhar e desqualificar um indivíduo ou um grupo, degradando as suas condições de trabalho, atingindo a sua dignidade e colocando em risco a sua integridade pessoal e profissional.” (Barreto e Heloani, 2018)

Para os autores acima, todo assédio moral é organizacional:

O assédio moral, o esgotamento por excesso de trabalho, a sensação de que por mais que se trabalhe sempre é exigido mais, a falta de reconhecimento e apoio institucional são as principais queixas. O sofrimento e adoecimento podem ser os efeitos danosos do assédio moral, da política verticalizada do “Judiciário 4.0” e de políticas implementadas através de resoluções monocráticas.

Cada vítima de assédio moral revela o mal-estar da organização do trabalho. Logo, o assédio moral afeta o coletivo de trabalhadores. E o sindicato precisa combater o abuso de autoridade de quem detém o poder soberano das chefias na iniciativa privada e nas instituições públicas.

Segundo o sociólogo do trabalho Giovanni Alves, o cerne do neoliberalismo é degradar o serviço público visando abrir espaço para os interesses da valorização privada do capital. Por isso, o Estado neoliberal reproduz, na organização pública, a lógica gerencialista oriunda das organizações privadas capitalistas. Ao ser utilizada na produção do serviço público, a lógica gerencialista perverte o sentido do trabalho público enquanto trabalho que permite – por exemplo, no caso da saúde, educação, previdência social, justiça – o acesso dos cidadãos a seus direitos sociais. Ao degradar a qualidade do serviço pública, a lógica gerencialista do capital faz adoecer o trabalhador e a trabalhadora da organização pública.

A disseminação da nova lógica gerencialista e produtivista na administração pública no Brasil diz respeito à vigência do Estado neoliberal no país. Giovanni Alves aponta a transformação das relações laborais em direção a condições mais vulneráveis e desfavoráveis para os trabalhadores, impactando negativamente a qualidade de vida, a segurança econômica e a estabilidade social.

Vamos pensar juntos, se estamos diante de uma organização do trabalho na qual o importante não são as pessoas, mas sim a exigência constante de produtividade, e cobranças para superar metas cada vez mais impossíveis de se alcançar pela falta de servidores. É grande o número de aposentados no serviço público, criando vazios de servidores e servidoras no ambiente de trabalho, com a exigência de que quem continuar trabalhando deve acumular o trabalho dos adoecidos e aposentados.

Essa sobrecarga de trabalho, a desvalorização do trabalhador e uma elite desumana fazem parte da história do Brasil, pois, além do autoritarismo das ditaduras políticas e econômicas que vivemos ao longo das últimas décadas, o mundo do trabalho faz parte de uma sociedade autoritária, elitizada, dona do poder financeiro, político, econômico e midiático. E, nesta sociedade neoliberal globalizada com ascensão da extrema direita no mundo globalizado, como escrevemos acima, chega-se à conclusão lógica de que o fascismo, o neoliberalismo e o assédio moral têm as mesmas raízes: do autoritarismo, do escravismo, da lei do mais forte, do poderoso. É nesta sociedade regida pelo neoliberalismo sócio-político-econômico e midiático que estamos inseridos.

Acredito que o movimento sindical sempre teve e tem um papel destacado nas lutas, não só pelos direitos dos trabalhadores, mas também na luta política, em prol de uma sociedade mais justa, em que não haja abismos sociais, mas sim justiça social. Tenho a honra de trabalhar com o Sitraemg desde 2015, no combate ao assédio moral, e posso afirmar que é um sindicato atuante tanto nos direitos dos servidores como no combate ao assédio moral, há 11 anos, através do DSTCAM Sitraemg (Departamento de Saúde do Trabalhador e Combate ao Assédio Moral)

Combatendo o assédio moral e sexual, a discriminação e o racismo, não podemos deixar que o poder e a hierarquia essenciais na organização de trabalho, se transforme em autoritarismo, poder sem limite, gestão de pessoas que gera sofrimento, adoecimento e morte.

Procure conhecer o trabalho DSTCAM em prol da saúde do servidor e da servidora.

  • Vladimir Safatle é doutor em Filosofia pela Universidade de Paris-VIII, professor convidado em diversas universidades da França, Bélgica, Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha, entre outras. É um dos coordenadores do Latesfip/USP.
  • Margarida Barreto, médica do Trabalho e doutora em Psicologia Social pela PUC-SP. Pioneira nos estudos sobre o combate ao assédio moral no Brasil e Iberoamerica.

               Membro fundador do site assediomoral.org.br.

  • Roberto Heloani é pós-doutor em Comunicação pela USP, doutor em Psicologia Social pela PUC-SP, mestre em Administração pela FGV/SP. Graduado em Direito pela USP. Membro fundador do site org.br.
Compartilhe

Veja também

Pessoas que acessaram este conteúdo também estão vendo

Busca

Notícias por Data

Por Data

Notícias por Categorias

Categorias

Postagens recentes

Nuvem de Tags