Acompanhe o Sitraemg nas redes sociais

O orçamento do PJU não pode continuar sendo uma caixa-preta

Fernando Neves Oliveira, analista judiciário do TRE-MG e ex-coordenador do SITRAEMG, atualmente diretor de base
Compartilhe

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores, não sendo esta necessariamente a opinião da diretoria do Sitraemg.


A recente iniciativa do Sitraemg de promover um debate sobre o orçamento do Poder Judiciário da União (PJU) para 2027 merece reconhecimento. Mais do que esclarecer números, a discussão evidencia uma questão fundamental: como defender efetivamente a valorização dos servidores sem conhecer, em profundidade, os mecanismos de elaboração, distribuição e execução dos recursos orçamentários?

Embora formalmente público, o orçamento do PJU permanece, na prática, uma verdadeira caixa-preta para grande parte dos servidores. A dispersão das informações, a complexidade das classificações orçamentárias e a dificuldade de identificar as prioridades de cada órgão comprometem a compreensão das reais possibilidades de reestruturação das carreiras.

É preciso superar a lógica segundo a qual a simples alegação de insuficiência orçamentária encerra qualquer discussão sobre valorização profissional. Transparência, conhecimento técnico e capacidade de articulação devem caminhar juntos.
Nesse sentido, a manutenção e o fortalecimento de uma assessoria econômica e orçamentária especializada são fundamentais. Mas precisamos avançar: não basta compreender o orçamento; é necessário participar qualificadamente dos espaços em que as decisões são construídas.

Da inteligência orçamentária à ação institucional

A experiência recente dos grupos de estudos e de trabalho voltados à remuneração da magistratura oferece uma referência importante de organização. A interlocução com autoridades e assessorias do Congresso Nacional demonstra a relevância de combinar conhecimento técnico, planejamento e presença institucional.

Por que os servidores do PJU não deveriam desenvolver uma estrutura igualmente organizada para defender suas reivindicações?

A resposta poderia começar pela criação de um Grupo Permanente de Inteligência Orçamentária e Articulação Institucional do PJU, com participação das entidades representativas, especialistas em orçamento público, Direito e processo legislativo, além de assessoria especializada em relações institucionais.

Esse grupo teria como atribuições acompanhar permanentemente a LOA, a LDO, o PLOA e os créditos adicionais; elaborar estudos de impacto financeiro e propostas de reestruturação; monitorar a tramitação legislativa; e manter interlocução sistemática com o Congresso Nacional, o CNJ e as administrações dos tribunais.

Mais do que produzir relatórios, sua missão seria transformar informação técnica em estratégia, capacidade de negociação e resultados concretos para a categoria.

Construir pontes, não aprofundar divisões

Existe, entretanto, uma dimensão estratégica que não pode ser ignorada: a relação entre magistrados e servidores.

Ambas as carreiras integram o mesmo sistema de Justiça e estão sujeitas a restrições orçamentárias que frequentemente colocam suas reivindicações em aparente competição.

Isso não significa que devam ser adversárias.

Antes de aprofundar antagonismos, é necessário construir pontes de diálogo e conscientizar a magistratura de que um Poder Judiciário forte depende da valorização tanto de seus magistrados quanto de seus servidores.

Os servidores são parte essencial da engrenagem que sustenta a prestação jurisdicional. São responsáveis por atividades jurídicas, administrativas e tecnológicas indispensáveis ao funcionamento dos tribunais, à segurança da informação, à transformação digital e à continuidade dos serviços prestados à sociedade.

Valorizar esses profissionais não significa retirar importância das reivindicações da magistratura. Significa reconhecer que a qualidade da Justiça depende de toda a sua estrutura humana.

Acompanhe as notícias mais importantes.
Siga o canal Sitraemg no WhatsApp – QUERO ENTRAR

Construir convergências, evidentemente, não implica renunciar à crítica às distorções remuneratórias, à defesa de uma distribuição mais equilibrada dos recursos ou à autonomia das reivindicações dos servidores.

A valorização de uma carreira não deveria pressupor o enfraquecimento da outra.

É hora de transformar conhecimento em estratégia

A reestruturação das carreiras do PJU exige mais do que mobilizações episódicas ou expectativas de iniciativas espontâneas das administrações dos tribunais.

Exige planejamento, estudos consistentes, articulação nacional e presença permanente nos espaços de decisão, especialmente no Congresso Nacional.

O debate promovido pelo Sitraemg representa um passo importante nessa direção. O próximo deve ser a institucionalização de uma estrutura permanente de inteligência orçamentária e articulação, capaz de reunir as entidades em torno de uma agenda técnica e estratégica de valorização profissional.

Não basta demonstrar que existem possibilidades orçamentárias. É necessário construir as condições institucionais para que essas possibilidades se convertam em direitos.

Afinal, não existe Poder Judiciário forte com uma carreira de servidores enfraquecida.

Compartilhe

Veja também

Pessoas que acessaram este conteúdo também estão vendo

Busca

Notícias por Data

Por Data

Notícias por Categorias

Categorias

Postagens recentes

Nuvem de Tags