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Há uma verdadeira engrenagem organizada para fabricar e espalhar mentiras, com o objetivo de provocar a revolta da população contra o governo, as instituições, o serviço público e as estatais, desviando a atenção das pessoas – como num truque de mágica. Em vez de a grande mídia enfatizar a necessidade de se extinguirem privilégios e mordomias de magistrados, ocupantes de altos cargos, políticos e militares; denunciar a corrupção associada ao orçamento secreto e às emendas “pix”; ou expor os prejuízos causados pelos juros abusivos praticados pelo Banco Central, que geram déficits de toda ordem ao orçamento brasileiro, ela prefere martelar, dia e noite, o suposto déficit dos Correios.
Não se trata de defender silêncio diante de má gestão ou corrupção nos Correios, mas de denunciar uma omissão seletiva. Se a mídia atuasse com honestidade, não poderia se calar diante desses outros problemas estruturais. Os juros elevados da dívida pública asseguram a transferência de cerca de metade da riqueza nacional (PIB) ao sistema financeiro, algo que vem sendo naturalizado como se fosse inevitável. Até novembro de 2025, por exemplo, a União transferiu aproximadamente R$ 981,9 bilhões – quase R$ 1 trilhão – aos bancos em função da política de juros do Banco Central. Onde está a indignação da grande mídia e de outros veículos, como a Jovem Pan, diante desses números?
Os Correios não foram criados para gerarem lucro, mas para garantirem cidadania a todos os habitantes do país, com direitos iguais assegurados pela Constituição Federal. Quanto custa entregar uma carta em regiões remotas da Amazônia, onde o carteiro passa horas em canoas pelos igarapés? O valor do selo de uma carta simples. É evidente que manter agências dos Correios em praticamente todos os municípios brasileiros é deficitário. Além disso, a empresa atua como correspondente bancária, em parceria com bancos públicos, cumprindo um papel social que o mercado privado não se dispõe a assumir, por ser, obviamente, deficitário.
Por outro lado, é preciso considerar que a distribuição de mercadorias realizada por pessoas físicas “pejotizadas” ou por trabalhadores informais – que transformam suas residências e seus veículos em “centros de distribuição” – gera enorme economia para as empresas contratantes, que deixam de arcar com encargos trabalhistas e sociais, como INSS e FGTS. Essa economia, porém, converte-se em custo social, que será pago por toda a sociedade quando esses trabalhadores adoecerem ou envelhecerem e baterem às portas do SUS e da Previdência Social, sem prévio recolhimento de todas contribuições garantidoras do custeio, ameaçando o equilíbrio de toda a Seguridade Social.
Hospitais públicos e escolas públicas também são deficitários, pois oferecem atendimento e ensino gratuitos ou a custos muito inferiores aos do setor privado. E daí? Interessa ao povo pagar caro a grupos econômicos por serviços essenciais, quando pode recebê-los gratuitamente ou por valores muito menores na rede pública?
A quem interessa, então, a privatização dos serviços públicos? Certamente não ao povo, mas aos grupos econômicos interessados na aquisição de patrimônio público e no controle de bens e serviços essenciais, submetendo a população à lógica exclusiva do lucro. Da mesma forma, a quem interessa produzir e espalhar fake news? O que se busca ocultar por trás dessas mentiras?
A história se repete: João Goulart possuía elevados índices de aprovação popular, mas mentiras disseminadas, sobretudo pela grande mídia, levaram muitos a acreditarem que ele implantaria o comunismo caso os militares não “salvassem” o país. O resultado foram 21 anos de uma ditadura sangrenta e corrupta.
Hoje, enquanto a grande mídia destaca nomes como Vorcaro, Toffoli e Moraes, silencia-se sobre as 12 milhões de vítimas do golpe financeiro do Banco Master, especialmente servidores do Distrito Federal, Rio de Janeiro, Amapá, Amazonas e de diversos municípios, que correm o risco de não terem garantidos seus benefícios previdenciários. Trata-se do velho malabarismo: desloca-se o foco para se protegerem interesses poderosos.
Voltamos a ouvir, com insistência, o lema “Deus, Pátria, Família”, historicamente associado ao fascismo, e muitas pessoas são cooptadas por essa doutrina sem se darem conta de seu significado em momentos sombrios da história.
Dessa breve análise das notícias produzidas e compartilhadas, emergem duas perguntas centrais: a quem interessa a disseminação dessas mentiras e quais interesses se pretende ocultar com esse malabarismo dirigido contra o povo de boa-fé?
Fica o convite à reflexão crítica.
Lilian Lírio – servidora do TRT3 em Uberaba e filiada do Sitraemg


